África

Durante anos, a África foi desprezada e ignorada pelos historiadores como campo de estudos. Hegel, em sua obra "Filosofia da História" afirmava que a África não era um continente histórico porque ela não demonstrava nem mudança nem desenvolvimento. Registros extraídos de compilações de cursos ministrados pelo professor Hugh Trevor-Hoper, intitulados "The Rise of Christian Europe" são demonstrativos da visão predominante nos meios intelectuais de então: "não se poderia permitir divertirmo-nos com o movimento sem interesse de tribos bárbaras nos confins pitorescos do mundo, mas que não exercem nenhuma influência em outras regiões". O tempo e a história encarregaram-se de provar que Hegel, Trevor-Hoper e tantos outros estavam na contramão dessa mesma história.

 

Os primeiros relatos sobre a África subsaariana são bem antigos, anteriores mesmo a essa designação, dada ao continente como um todo pelos europeus no século XVII. São escritos de mercadores mediterrânicos e de historiadores da civilização islâmica medieval.

 

"Os autores árabes eram mais bem informados, uma vez que em sua época a utilização do camelo pelos povos do Saara havia facilitado o estabelecimento de um comércio regular com a África Ocidental e a instalação de negociantes norte-africanos nas principais cidades do Sudão Ocidental. Por outro lado, o comércio com a parte ocidental do Oceano Índico tinha se desenvolvido a tal ponto que um número considerável de mercadores da Arábia e do Oriente Próximo se instalara ao longo da costa oriental da África. Assim, as obras de homens como al-Mas`Udi, al Bakri, al Idrisi, Yakut, Abul-Fida, Ibn-Battuta e Hassan Ibn Mohammad (conhecido na Europa como Leão, o Africano, 1494-1552 aproximadamente) são de grande importância para a reconstituição da História da África, em particular a do Sudão Ocidental e Central, durante o período compreendido entre os séculos IX e XV. (1)

 

O continente africano foi berço de diversas civilizações - a mais conhecida delas é a egípcia (2) - embora praticamente ignorada pelos demais povos. A situação só começaria a mudar a partir de 632, após a morte de Maomet, quando a conquista árabe passa por grande impulsão. Dois anos depois desta data, uma expedição chegou ao Sudão, dando início a um contato que não mais sofreria interrupções (3). É esta região que será dominada pelos impérios africanos.

 

As origens de alguns desses reinos são imprecisas, mas o primeiro de que se tem notícia é o de Gana, fundado, provavelmente, no século IV e que foi grande produtor de ouro. Na verdade, Gana era o título usado pelos reis. O nome do país era Aukar (4). Bakir nos dá conta da riqueza do reino ao relatar que Gana “é a cidade mais importante de todo o território dos negros”, visitada por ricos mercadores dos países vizinhos e de todos os países do Magrebe Ocidental. Seus relatos nos permitem ter uma visão da extensão do reino, do poderio do soberano e do funcionamento da economia naquela sociedade. O rei, que conta com a ajuda de governadores e vizires para a administração do território, ganha sobre cada burro carregado de sal que entra em seus país e sobre cada carregamento de sal exportado, além de deter o poder sobre todas as pepitas de ouro encontradas nas minas de seu império. Ao povo, cabe somente o pó do ouro, uma medida implantada pelo soberano e que visa impedir a circulação de grande grande quantidade de pepitas e a consequente desvalorização do metal.

 

Os povos de Gana comercializavam o ouro em troca de sal e de outros produtos mediterrânicos com os mercadores e estes, por sua vez, pagavam tributos às comunidades cujos territórios precisavam atravessar para chegar à capital do império. Estas comunidades, agrárias em sua maioria, praticavam o modo de produção de linhagem ou doméstico, caracterizado pela formação de comunidades familiares e aldeãs, organizadas em torno da família ampliada (patriarca, filhos casados e solteiros, cativos etc) (5). O intenso comércio de ouro sal entre Gana e outras cidades propiciou o enriquecimento não só dos povos  deste reino mas também de vários outros que, direta ou indiretamente  participavam dessa atividade e partilhavam os lucros dela resultante, caso dos berberes sanhadjas, que traziam o sal, e dos nômades do deserto, que cavavam os poços ao longo das rotas de comércio, e ainda de outros grupos árabes ou arabizados (6). Gana reinou absoluto até a expansão dos berberes das costas atlânticas da África, que deu origem à dinastia almorávida e resultou no seu domínio sobre o Magrebe e a Espanha muçulmana. Os almorávidas conquistaram Gana em 1077, após dominar as cidades de Sidjilmassa e Audaghost, então importantes centros comerciais. Os territórios do reino foram reduzidos, a maioria de sua população convertida ao islamismo e obrigada a pagar tributos aos almorávidas.

 

O Império Almorávida sobrepôs-se em grandeza à Gana. Contudo, com o passar dos tempos, seus governantes, que haviam empunhado a bandeira da moralização e da lealdade a Alá tornaram-se despóticos, o que resultou na perda do apoio da população. O poder almorávida chegou ao fim  no século XII, sem haver revolucionado ou modificado as relações sociais de produção. “Os hábitos e necessidades mais simples da nova aristocracia, originária de pobres regiões do norte da África haviam diminuido, inicialmente, as exigências que pesavam sobre os agricultores e pastores. Os ricos artesanato e agricultura ibéricos permitiam, entretanto,  às novas classes dominantes, uma vida de fausto, à qual elas se entregavam sem hesitações (7).

 

Com a derrocada dos almorávidas, o que então restara do reino de Gana foi dominado pelos Sussu (ou Sosso) que subjugaram a população tornando-a escrava. Já nessa época, a população do Mali se expandia e não demoraria a incorporar os territórios vizinhos, incluindo os dominados pelos sossa. Fortificava-se assim o Império do Mali, cujo domínio territorial se estendeu do Gana ao Oceano Atlântico (8). A fundação deste império é atribuída a Sundiata, um reconhecido chefe militar que assumiu o poder depois de impingir a derrota a vários povos. Para governar, Sundiata dividiu a região em províncias, nomeou governadores para cada uma delas e fincou a capital em Niani, bem mais ao sul da antiga capital de Gana, com o intuito de proteger-se de possíveis ataques dos nômades do deserto.

 

O império, entretanto, torna-se conhecido graças ao soberano Mansa-Mussa, que ao fazer uma peregrinação a Meca no começo do século XIV, revelaria ao mundo árabe toda a riqueza do continente africano. De acordo com os relatos de historiadores árabes, Mussa teria levado a Meca 12 mil escravos ricamente vestidos e 80 carregamentos de ouro em pó. Também nas relações comerciais o Mali superou Gana, que comerciava basicamente com o sul do Marrocos. Os governantes malinkes estenderam esse contato para a Tripolitânia (região da Líbia) e para o Egito, provocando o surgimento de cidades mercantis como Djenne e Tombuctu. Esta última se tornaria um dos principais centros comerciais do Sudão ocidental, com centenas de escolas coranistas e uma população que incluía muitos médicos, juízes e livreiros.

 

A decadência do Império do Mali a partir de 1.400 coincide com o abandono da rota comercial do Saara ocidental em detrimento daquela que ligava a bacia do Níger à Tunísia e à Cirenaica. Os centros de civilização começavam a deslocar-se para o leste, beneficiando o reino songai de Gao, o último grande estado mercantil-tributário do Sudão ocidental (9). Um de seus reis, Ali, o Grande, é tido como grande estadista, apesar de impor-se pela força. Atua dividindo o império em quatro vice-reinos; organiza um sistema regular de impostos; unifica os pesos e as medidas e forma um exército regular constituído por escravos e prisioneiros.

 

Quando os portugueses chegaram à costa ocidental da África, a sociedade de Gao já experimentava uma organização estatal com a existência de classes antagônicas e um aparato administrativo que aos poucos se distanciava da organização gentilícia e tribal (10). A presença dos europeus vai implicar no deslocamento, para a costa, dos centros mercantis e no consequente esvaziamento econômico de Gao. Em busca de ouro nos primeiros tempos, logo os portugueses vão dirigir sua procura para a mão-de-obra africana, ali barata e abundante. “O tráfico atlântico começou verdadeiramente com o desaparecimento do último grande império africano, o Songhai. A divisão do país em numerosos reinos ou pequenas entidades políticas ao nível da tribo ou da pequena comunidade de aldeia, frequentemente hostis entre si, favoreceu o desenvolvimento do tráfico (11), “comércio” este que, entre 1441 e meados do século XIX, iria se constituir no único elo de ligação entre a África Negra, a Europa e a América.

 

Foram muitas e variadas as sociedades africanas do período pré-colonial e esses reinos não se limitaram a dominar e suceder uns aos outros simplesmente. Pode-se falar em aprimoramento, ou avanço, das estruturas político-econômicas. Esse dinamismo nos reinos africanos pré-coloniais é reconhecido por Ki-Zerbo (12) para quem havia uma “passagem incessante e alternada do dominum de um ao da outra forma de civilização, sem que esse ritmo seja cíclico, pois se reproduz a cada vez em um nível superior, para dar origem a uma espécie de progressão em espiral”. Assim, não é de se estranhar que no reino de Gao, o último império africano antes da chegada dos portugueses ao continente, já existissem cargos e funções  administrativos claramente estabelecidos, como por exemplo, o de chefe do tesouro, chefe dos negócios com os brancos e o de responsável pelas florestas (13).

 

Animistas uns, islamizados outros, esses reinos, embora desenvolvessem uma intensa troca mercantil (ouro, sal e, posteriormente, escravos) tinham sua economia centrada na tributação e na agricultura, explorada pelas comunidades-aldeãs. “Apesar da grande importância dos metais nesse período, a agricultura era a base principal da economia dos reinos ao sul do Saara. A produção apoiava-se na exploração familiar das terras. No entanto, aqui e ali existiam grupos de populações escravizadas que trabalhavam para os soberanos” (14). Estas comunidades-aldeãs desenvolviam o que se convencionou chamar de modo de produção de linhagem ou doméstico (15) e funcionavam organizadas em torno da família ampliada. Embora se dedicassem à agricultura e à produção de artesanato, também se beneficiavam do intenso comércio de longa distância tributando os mercadores que passavam por suas terras.  O conhecimento que detinham das técnicas agrícolas e artesanais “permitia a prática de uma agricultura de produtividade suficientemente elevada para satisfazert as necessidades alimentares necessárias à conservação e à reprodução de seus membros, assim como à repetição do ciclo agrícola” (16). A terra, nessas comunidades, era considerado um bem indiviso e explorada coletivamente sem a ingerência do Estado. Ao patriarca do clã, encarregado de gerir os bens familiares e conceder as esposas ou dotes matrimoniais, era devido um tributo. Nessas sociedades, aparentemente igualitárias, os jovens e as mulheres, em particular esta última,  além dos escravos, encontravam-se em posição diferenciada em relação aos homens e velhos.

 

As relações de parentesco, para Mário Maestri (17), funcionavam como verdadeira superestrutura politico-ideológica que justificava as relações sociais de produção, e estas, por sua  vez, como suporte das relações institucionais de reprodução. A mulher tinha uma importante função econômica nessas sociedades, trabalhando como agricultoras e, na maioria dos casos, como comerciantes. A tributação do comércio de longa distância e do excedente de produção das comunidades-aldeãs, que servia para financiar o aparato estatal dos reinos africanos, cai por terra com a chegada dos portugueses às costas africanas, dando início a um ciclo de transformações sociais e econômicas profundas.

 

“Os reinos comerciais deram lugar a reinos escravizadores. A acumulação de bens e poder, desenvolvida pelos segmentos senhoriais negros, passou a ser efetuada, em grande parte, através da expatriação de jovens africanos reduzidos ao cativeiro” (18). Este novo tipo de economia (escravismo) também veio alterar a própria estrutura política no que se refere ao poder, emergindo daí linhagens novas e potenciais na sucessão do futuro (19).

Fonte: Bebel